Chamada de artigos para o dossiê “Gênero, violência política e crise democrática na América Latina”. Prazo de submissão: 29/05/2026 a 29/06/2026
A última década na América Latina tem sido atravessada por uma tensão estrutural pois ao mesmo tempo em que se consolidam marcos legais de paridade de gênero e se observa um crescimento histórico da presença de mulheres – em especial indígenas e negras – nos espaços de poder político, também intensificam-se formas múltiplas e sofisticadas de violência política (Rios; Miranda, 2025). Este fenômeno não é um mero desvio, mas sintomático de um backlash reativo, uma contra ofensiva organizada para frear os avanços feministas e antirracistas (Frontera, 2025), revelando-se como um sintoma estrutural da crise mais ampla das democracias na região (Restrepo Sanín, 2020; Faludi et. al., 2020). Nesse sentido, tais regimes têm demonstrado limites persistentes para converter a inclusão numérica de determinados grupos subalternizados socialmente em equidade substantiva, bem como para garantir a proteção institucional aos corpos e vozes que desafiam as hegemonias tradicionais (Biroli, 2020; Waylen, 2015). Assim, a crescente visibilidade da violência política de gênero e raça na região expõe as fragilidades democráticas na produção de condições efetivamente equitativas de representação (Souza Lima et. al., 2022; Matos, 2019, 2022).
Nesse contexto, o avanço das candidaturas femininas (progressistas ou não) e a institucionalização da paridade coexistem com práticas renovadas de hostilidade, intimidação e exclusão simbólica dirigidas a mulheres e a sujeitos racializados que ousam ocupar o campo político.
Este Dossiê propõe reunir contribuições que discutam criticamente as interseções entre gênero, raça e poder, analisando tanto as dinâmicas da violência política quanto as respostas formuladas por atores/ atrizes, instituições e movimentos sociais. A partir de abordagens feministas, interseccionais e decoloniais, buscamos visibilizar um campo de pesquisa urgente, oferecendo um diagnóstico da crise democrática latino-americana ancorado nas experiências de mulheres negras, indígenas, pessoas LGBTQIA+, periféricas e rurais, atravessadas por múltiplos marcadores de desigualdade. Ao articular teoria política e análise empírica, pretende-se, ainda, indicar caminhos para uma reimaginação democrática da região.
São quatro eixos temáticos que irão compor o Dossiê:
- Morfologias da violência política: tipologias, cenários e atores/atrizes. Este eixo busca mapear e teorizar as formas de violência política de gênero (VPG) e/ou violência política contra as mulheres (VPCM) em seus múltiplos cenários;
- Dinâmicas e contextos da violência: Com foco nas respostas institucionais e sua (in)capacidade de conter a VPG. São bem-vindas análises sobre a eficácia e os limites dos sistemas de justiça eleitoral e penal; o papel ambíguo dos partidos políticos na instrumentalização das candidaturas femininas e a proteção efetiva de suas militantes; a atuação de organismos internacionais e a criação de protocolos e estudos de natureza comparativa;
- Representação sob ataque: Artigos que explorem o impacto corrosivo da VPG/VPCM na democracia, incluindo questões de como a violência afeta a autonomia política e as agendas/mandatos; a relação entre violência, democracia paritária e democracia racial; o impacto na qualidade da representação descritiva e substantiva para grupos sub-representados;
- Resistências, agency e futuros políticos: Voltado para as estratégias de enfrentamento e os atores/atrizes que as protagonizam, como: Estratégias coletivas de movimentos feministas, antirracistas e indígenas (observatórios, campanhas, litigância estratégica, alianças transnacionais); táticas individuais e coletivas de resiliência e sobrevivência política adotadas pelas próprias alvos da violência; análises sobre a interseccionalidade nas resistências e a construção de solidariedades.
Desta forma, encorajamos a submissão de artigos baseados em pesquisas empíricas que empreguem métodos qualitativos (como etnografias, entrevistas em profundidade e análise de discurso), quantitativos (como surveys e análise estatística de dados eleitorais e de violência) ou abordagens mistas. São especialmente bem-vindas contribuições fundamentadas em evidências empíricas originais, estudos de caso, análises comparativas entre países ou regiões da América Latina para compreender como a violência política de gênero e raça se manifesta em distintos contextos institucionais e sociopolíticos. Espera-se que os trabalhos submetidos contribuam para o avanço do debate ao identificar padrões, mecanismos causais, estratégias institucionais de enfrentamento e impactos da violência política sobre a representação democrática.
Gender, Political Violence, and Democratic Crisis in Latin America
Over the past decade, Latin America has been shaped by structural tension. On one hand, legal frameworks for gender parity have been consolidated, and there has been a historic increase in the presence of women – particularly Indigenous and Black women – in spaces of political power. On the other hand, multiple and sophisticated forms of political violence have intensified (Rios; Miranda, 2025). This phenomenon is not a mere deviation, but rather symptomatic of a reactive backlash – an organized counter-offensive aimed at curbing feminist and anti-racist advances (Frontera, 2025) – revealing itself as a structural symptom of the broader crisis of democracies in the region (Restrepo Sanín, 2020; Faludi et al., 2020). In this sense, these political regimes have shown persistent limitations in converting the numerical inclusion of certain socially subalternized groups into substantive equity, as well as in guaranteeing institutional protection for the bodies and voices that challenge traditional hegemonies (Biroli, 2020; Waylen, 2015). Thus, the growing visibility of gender- and race-based political violence in the region exposes democratic frailties in producing genuinely equitable conditions for representation (Souza Lima et al., 2022; Matos, 2019, 2022).
In this context, the rise of female candidates (whether progressive or not) and the institutionalization of parity coexist with renewed practices of hostility, intimidation, and symbolic exclusion directed at women and racialized subjects who dare to occupy the political field.
This Dossier aims to bring together contributions that critically examine the intersections between gender, race, and power, analyzing both the dynamics of political violence and the responses formulated by actors, institutions, and social movements. Drawing on feminist, intersectional, and decolonial approaches, we seek to bring visibility to an urgent field of research, offering a diagnosis of the Latin American democratic crisis grounded in the experiences of Black women, Indigenous women, LGBTQIA+ people, and those from peripheral and rural backgrounds, who are marked by multiple axes of inequality. By articulating political theory and empirical analysis, we also intend to point toward pathways for a democratic reimagining of the region.
The Dossier is organized around four thematic axes:
- Morphologies of Political Violence: Typologies, Scenarios, and Actors. This axis seeks to map and theorize the forms of gender-based political violence (GPV) and/or violence against women in politics (VAWP) across multiple scenarios;
- Dynamics and Contexts of Violence: Focusing on institutional responses and their (in)capacity to contain GPV. We welcome analyses on the effectiveness and limits of electoral and criminal justice systems; the ambiguous role of political parties in the instrumentalization of female candidates and the effective protection of their activists; the performance of international organizations; and the development of protocols and comparative studies;
- Representation Under Attack: Articles exploring the corrosive impact of GPV/VAWP on democracy, including how violence affects political autonomy and agendas/mandates; the relationship between violence, parity democracy, and racial democracy; and the impact on the quality of descriptive and substantive representation for underrepresented groups;
- Resistances, Agency, and Political Futures: Focused on coping strategies and the actors who lead them, such as: collective strategies of feminist, anti-racist, and Indigenous movements (observatories, campaigns, strategic litigation, transnational alliances); individual and collective tactics of resilience and political survival adopted by the targets of violence; and analyses of intersectionality within resistance and the construction of solidarities.
We encourage the submission of articles based on empirical research employing qualitative methods (such as ethnographies, in-depth interviews, and discourse analysis), quantitative methods (such as surveys and statistical analysis of electoral and violence data), or mixed approaches. Contributions grounded in original empirical evidence, case studies, and comparative analyses across countries or regions within Latin America are especially welcome, in order to understand how gender- and race-based political violence manifests in different institutional and sociopolitical contexts. Submissions are expected to advance the debate by identifying patterns, causal mechanisms, institutional coping strategies, and the impacts of political violence on democratic representation.
Género, violencia política y crisis democrática en América Latina
La última década en América Latina ha estado atravesada por una tensión estructural, pues al mismo tiempo que se consolidan marcos legales de paridad de género y se observa un crecimiento histórico de la presencia de mujeres – especialmente indígenas y negras – en los espacios de poder político, también se intensifican formas múltiples y sofisticadas de violencia política (Rios; Miranda, 2025). Este fenómeno no es una mera desviación, sino que es sintomático de un backlash reactivo, una contraofensiva organizada para frenar los avances feministas y antirracistas (Frontera, 2025), revelándose como un síntoma estructural de la crisis más amplia de las democracias en la región (Restrepo Sanín, 2020; Faludi et al., 2020). En este sentido, dichos regímenes han demostrado límites persistentes para convertir la inclusión numérica de ciertos grupos socialmente subalternizados en equidad sustantiva, así como para garantizar la protección institucional a los cuerpos y voces que desafían las hegemonías tradicionales (Biroli, 2020; Waylen, 2015). Así que la creciente visibilidad de la violencia política por razones de género y raza en la región expone las fragilidades democráticas en la producción de condiciones efectivamente equitativas de representación (Souza Lima et al., 2022; Matos, 2019, 2022).
En este contexto, el avance de las candidaturas femeninas (progresistas o no) y la institucionalización de la paridad coexisten con prácticas renovadas de hostilidad, intimidación y exclusión simbólica dirigidas a mujeres y a sujetos racializados que se atreven a ocupar el campo político.
Este Dossier propone reunir contribuciones que discutan críticamente las intersecciones entre género, raza y poder, analizando tanto las dinámicas de la violencia política como las respuestas formuladas por actores/actrices, instituciones y movimientos sociales. A partir de abordajes feministas, interseccionales y decoloniales, buscamos visibilizar un campo de investigación urgente, ofreciendo un diagnóstico de la crisis democrática latinoamericana anclado en las experiencias de mujeres negras, indígenas, personas LGBTQIA+, periféricas y rurales, atravesadas por múltiples marcadores de desigualdad. Al articular teoría política y análisis empírico, se pretende, además, indicar caminos para una reimaginación democrática de la región.
Son cuatro los ejes temáticos que compondrán el Dossier:
- Morfologías de la violencia política: tipologías, escenarios y actores/actrices. Este eje busca mapear y teorizar las formas de violencia política por razones de género (VPG) y/o violencia política contra las mujeres (VPCM) en sus múltiples escenarios;
- Dinámicas y contextos de la violencia: Con foco en las respuestas institucionales y su (in)capacidad para contener la VPG. Se reciben con agrado análisis sobre la eficacia y los límites de los sistemas de justicia electoral y penal; el papel ambiguo de los partidos políticos en la instrumentalización de las candidaturas femeninas y la protección efectiva de sus militantes; la actuación de organismos internacionales y la creación de protocolos y estudios de naturaleza comparativa;
- Representación bajo ataque: Artículos que exploren el impacto corrosivo de la VPG/VPCM en la democracia, incluyendo cuestiones como: de qué manera la violencia afecta la autonomía política y las agendas/mandatos; la relación entre violencia, democracia paritaria y democracia racial; el impacto en la calidad de la representación descriptiva y sustantiva para grupos subrepresentados;
- Resistencias, agencia y futuros políticos: Orientado a las estrategias de enfrentamiento y a los actores/actrices que las protagonizan, tales como: estrategias colectivas de movimientos feministas, antirracistas e indígenas (observatorios, campañas, litigio estratégico, alianzas transnacionales); tácticas individuales y colectivas de resiliencia y supervivencia política adoptadas por las propias víctimas de la violencia; análisis sobre la interseccionalidad en las resistencias y la construcción de solidaridades.
De esta forma, animamos a la presentación de artículos basados en investigaciones empíricas que empleen métodos cualitativos (como etnografías, entrevistas en profundidad y análisis del discurso), cuantitativos (como encuestas y análisis estadístico de datos electorales y de violencia) o enfoques mixtos. Se reciben con especial interés contribuciones fundamentadas en evidencia empírica original, estudios de caso, análisis comparativos entre países o regiones de América Latina para comprender cómo la violencia política de género y raza se manifiesta en distintos contextos institucionales y sociopolíticos. Se espera que los trabajos presentados contribuyan al avance del debate al identificar patrones, mecanismos causales, estrategias institucionales de enfrentamiento e impactos de la violencia política sobre la representación democrática.
REFERÊNCIAS
BIROLI, Flávia. Violence against women and reactions to gender equality in politics. Politics & Gender, v. 14, n. 4, p. 681-685, 2018.
FALUDI, Susan et al. A conversation with Susan Faludi on backlash, Trumpism, and #MeToo. Signs: Journal of Women in Culture and Society, v. 45, n. 2, p. 336-345, 2020.
FRONTERA, Agustina Paz. ¿Demasiado feminismo?: La política feminista entre el Estado, el activismo y la batalla cultural de la derecha radical. Siglo XXI Editores, 2025.
MATOS, Marlise. A violência política sexista no Brasil: o caso da Presidenta Dilma Rousseff. In: ROSA, R. et al. (Orgs.). Observando as desigualdades de gênero e raça nas dinâmicas sociais em Minas Gerais. Belo Horizonte: Instituto Cultural Boa Esperança, 2019.
MATOS, Marlise. A violência política sexista, racista e interseccional: mapeando conceitos da violência política contra as mulheres In: D’ÁVILA, Manuela (Org). Sempre foi sobre nós: relatos da violência política de gênero no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022. p. 201-220.
RESTREPO SANÍN, Juliana. Violence against women in politics: Latin America in an era of backlash. Signs: Journal of Women in Culture and Society, v. 45, n. 2, p. 302-310, 2020.
RIOS, Flavia; MIRANDA, Lara. Ethnic and racial violence and violations: A study of Black and Quilombola populations. In: The Turn to Racism and Anti-racism in Latin America. Routledge, 2025. p. 78-100.
SOUZA LIMA, Lívia; FABRIS, Ligia; GOULART DA SILVA, Mayra. Violence Against Black Women in Politics: Experiences and Testimonials from Brazil. Femina Politica–Zeitschrift für feministische Politikwissenschaft, v. 31, n. 2, p. 57-71, 2022.
WAYLEN, Georgina. Engendering the ‘crisis of democracy’: Institutions, representation and participation. Government and Opposition, v. 50, n. 3, p. 495-520, 2015.
Coordenadoras: Laura Cazarini Trotta (UFSCar) e Jéssica Melo Rivetti (USP)
